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11/02 - 07:13 - Luísa Pécora, iG São Paulo
Com 17% do número de contaminados do mundo, governo promete nova era de combate à epidemia, que condenou desnecessariamente à morte 365 mil sul-africanos no início da última década.
Uma nova era no combate à aids na África do Sul está prevista para começar no mês de abril, segundo o presidente do país, Jacob Zuma. Durante um discurso no final de 2009, ele apresentou seus planos para frear o crescimento do número de infectados: atualmente são 5,7 milhões – ou mais de 10% dos 50,1 milhões de sul-africanos.
Segundo o jornal "The New York Times", apesar de o país ter menos de 1% da população do mundo, seus infectados correspondem a 17% dos soropositivos – um recorde mundial.
Para reverter esse quadro, o novo plano prevê a cessão de antirretrovirais a todas as gestantes, crianças soropositivas com menos de um ano e pacientes que tenham tuberculose e aids. Atualmente, os hospitais públicos oferecem os medicamentos apenas aos portadores do HIV, e não aos que já manifestaram os sintomas da doença.
No discurso, Zuma admitiu que a Aids é responsável pela baixa expectativa de vida dos sul-africanos (média de 50 anos) e pediu à população que combata a desinformação sobre a epidemia. Para encorajar todos a se submeter ao teste da Aids, ele afirmou que também faria o exame.
No pronunciamento, o presidente chegou a recorrer à lembrança do apartheid para mobilizar os sul-africanos para a campanha. "Juntos combatemos e derrotamos um sistema tão corrupto e cruel que foi descrito como um crime contra a humanidade", afirmou. "Juntos, podemos vencer esse (novo) desafio".
A declaração prévia de Zuma é um exemplo dos desafios que a campanha deve enfrentar no país. O uso de preservativo, a diminuição de parceiros sexuais e a circuncisão, prática recomendada pela Organização Mundial de Saúde como método preventivo, não são aceitos por alguns grupos étnicos sul-africanos.
Desafios
Segundo o Órgão da ONU para o HIV/aids (Unaids), 350 mil morreram de aids no país em 2008. No mesmo ano, a doença deixou órfãos 1,4 milhão de sul-africanos com idades entre 0 e 17 anos.
Um estudo da Universidade de Harvard, publicado em 2008, estima que 365 mil mortes poderiam ter sido evitadas no início da última década se o governo tivesse ampliado a oferta de antirretrovirais. Os índices são ruins mesmo quando comparados a outras nações da África. Em 2005, enquanto o país atendia apenas 23% da população necessitada, Botsuana prestava assistência a 85% e a Namíbia, a 71%.
Segundo a Unaids, a África do Sul precisaria buscar formas de baratear os remédios usados no tratamento. Atualmente, a compra de antirretrovirais representa 40% do custo total do Plano Nacional Estratégico (NSP, na sigla inglês), documento que define a política de combate à Aids na África do Sul desde 2007.
Problemas logísticos e falta de pessoal foram as justificativas dadas pelo atual ministro da Saúde, Aaron Motsoaledi, para explicar por que não serão atingidas as metas definidas pelo NSP: reduzir o número de infecções em 50% e fornecer tratamento a 80% dos soropositivos até 2011.
Alho e suco de beterraba
Motsoaledi foi indicado ao cargo por Zuma, que sucedeu Thabo Mbeki (1999 a 2008) na presidência em 2009. O ex-presidente é considerado um dos responsáveis pela escalada da aids no país, por não ter facilitado o acesso da população aos antirretrovirais. Durante seu governo, o ministro da Saúde Manto Tshabalala-Msimang chegou a propor que a doença fosse combatida com alho, suco de limão e beterraba.
Para Dirk Kotze, professor da Universidade da África do Sul, a mudança de governo significou uma nova postura. "Mbeki negava que o vírus HIV fosse causador da doença e não quis investir em políticas de tratamento e prevenção", afirmou ao iG. "Hoje, mais dinheiro é destinado ao combate à aids."
Em 2002, uma decisão da Corte Constitucional exigiu que o governo providenciasse remédios para impedir que gestantes transmitissem o vírus HIV aos filhos. Organizações internacionais como a Fundação Clinton e governos de outros países também pressionaram Mbeki a investir em programas assistenciais.
Segundo Tandall L. Tobias, que, durante o governo de George W. Bush coordenou a ação global dos EUA contra a Aids, houve pouco diálogo com as autoridades sul-africanas. "Fizemos muitas coisas não por causa do Ministério da Saúde da África do Sul, mas apesar dele", afirmou ao "The New York Times".
Avanços tímidos
Apesar dos problemas, alguns avanços tímidos vêm sendo registrados. A incidência de HIV entre jovens com menos de 20 anos passou de 15,9% em 2005 para 13,7% em 2006. Na avaliação da Unaids, o dado sugere uma maior consciência sobre a importância do sexo seguro como método de prevenção. Por ano, 400 milhões de preservativos são distribuídos no país.
A África do Sul tem o maior programa de tratamento da Aids no mundo e atendeu, de 2005 a 2007, cerca de 370 mil no setor público e 120 mil no setor privado.
Segundo a Unaids, o setor público financia 74% dos programas relacionados à doença. O orçamento destinado a esses projetos era de US$ 225,8 milhões em 2006 e passou para US$ 479,6 milhões em 2007.
Os avanços, porém, são insuficientes.
Para a agência da ONU, um dos principais desafios a serem vencidos é a falta de profissionais preparados para informar os sul-africanos sobre a prevenção e o tratamento da doença.
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